Meu Autor de Cabeceira: Jane Austen

Olá pessoal!

Na coluna “Meu Autor de Cabeceira” dessa semana vou falar de uma de minhas escritoras preferidas: Jane Austen. Ao longo de seus 41 anos de vida, Austen escreveu seis romances conhecidos e aclamados mundialmente (Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, Mansfield Park, Emma, A Abadia de Northanger e Persuasão); dois trabalhos menores (Lady Susan e Juvenilia); e dois romances inacabados (The Watsons e Sandition).

Único quadro de Austen, por sua irmã Cassandra

Jane Austen nasceu em 16 de Dezembro de 1775 em Steventon, Inglaterra (cerca de 100 quilômetros de Londres). Austen pertenceu à uma família grande: tinha seis irmãos e uma irmã – Cassandra – que era sua amiga e confidente. Nenhuma das duas garotas chegou a completar sua educação, devido à falta de recursos de seus pais para manter ambas na escola. Mesmo com o fim de sua educação formal, Austen continuou lendo, guiada por seus irmãos e seu pai. A casa da família Austen estava sempre cheia de pessoas tornando tudo mais interessante e divertido, o que incluía pequenas apresentações teatrais. Especula-se que foram dessas apresentações animadas que surgiu a sementinha irônica de Austen, tão aclamada em todas as suas obras.

Aos 11 anos Austen começou a escrever pequenos contos que, mais de 100 anos após sua morte, foram publicados sob o título de Juvenilia. Nessas pequenas histórias é possível notar o talento de Austen com as palavras – mesmo em trabalhos imaturos – e que sua ironia tão peculiar já começava a ser desenvolvida. Austen escreveu a última parte da Juvenilia aos 16 anos,

Entre 1793 e 1795, Austen escreveu Lady Susan, um romance epistolar sobre uma viúva – Lady Susan – que tenta encontrar o melhor partido enquanto mantém um relacionamento com um homem casado. Provavelmente o mais diferente dos romances de Jane Austen, Lady Susan nunca foi enviado para publicação pela autora ou sua família.

Após terminar Lady Susan, Jane Austen resolveu escrever seu primeiro romance longo, também em forma de cartas, ao qual chamou de Elinor & Marianne. Ao revisar o manuscrito anos depois, Jane Austen mudou o título para Razão e Sensibilidade (leia a resenha aqui) e graças às diversas cartas queimadas por Cassandra após a morte de Austen, é impossível saber o quanto do roteiro original sobreviveu às revisões.

Casa onde Jane Austen viveu seus últimos anos, e é hoje um Museu

No ano seguinte (1796), Austen escreveu Primeiras Impressões e como de costume, leu o esboço para sua família, e ele se tornou o favorito de todos. Provavelmente sem que Austen soubesse, seu pai tentou publicar Primeiras Impressões, mas como acontece com todos os grandes autores, o trabalho foi rejeitado veementemente.  Austen começou então a trabalhar em Susan (ou como nós o conhecemos atualmente, A Abadia de Northanger), que é uma sátira aos romances góticos da época. A Abadia de Northanger foi o primeiro romance de Austen a ser aceito para publicação e – ironicamente – o último a ser publicado.

Através de seu irmão Henry, Austen conseguiu com que Razão e Sensibilidade fosse publicado em 1811, e seu sucesso levou à publicação de Orgulho e Preconceito – a revisão de Primeiras Impressões. Mansfield Park veio depois, seguido por Emma (meu favorito!), que foi o último romance publicado antes de sua morte, em 1817. Enquanto Emma estava em preparação para ser publicado, Austen escreveu The Elliots (mais conhecido como Persuasão – leia a resenha aqui); revisou A Abadia de Northanger (cujos direitos foram novamente adquiridos após Austen pagar o editor, que não tinha intenção de publicar a obra) e escreveu 12 capítulos de uma nova obra – Os Irmãos (publicado como Sandition em 1925) – antes de adoecer e abandonar definitivamente a escrita. Dois romances de Austen tiveram publicação póstuma: Persuasão e A Abadia de Northanger, nos quais Henry Austen escreveu uma “nota biográfica”, identificando pela primeira vez sua irmã como autora dessas obras.

Tom Lefroy, 1798

A partir do momento em que passei a me considerar uma fã de Jane Austen, comecei a me perguntar sobre sua vida pessoal; afinal, não é natural sentirmos curiosidade para saber dos romances vividos pela autora de personagens tão intrigantes? Pois é, mas ao contrário de suas heroínas, Austen não teve um final feliz, romanticamente falando. É de conhecimento público que quando tinha 20 anos de idade, um jovem rapaz que atendia pelo nome de Tom Lefroy estava de passagem por Steventon e caiu nas graças de Miss Austen. Em uma das cartas sobreviventes à Cassandra, Austen escreveu sobre Lefroy: “Quase tenho receio de lhe contar como meu amigo irlandês e eu nos comportamos. Imagine tudo de mais imoral e chocante na maneira de dançarmos e nos sentarmos juntos.”* É claro que isso não quer dizer que Austen tenha tomado todas as liberdades como as que foram mostradas no filme “Becoming Jane” (Amor e Inocência), uma delas sendo inclusive a possibilidade de fugirem juntos – coisa que eu simplesmente me recuso a acreditar que Miss Austen teria sequer considerado. Ela e Lefroy não se casaram devido às dificuldades financeiras de ambos, e mais tarde Lefroy admitiu ter amado Jane Austen: “Foi um amor juvenil.”*

Algumas Curiosidades:

– Após a publicação de A Abadia de Northanger e Persuasão, nenhum trabalho de Jane Austen foi republicado por 12 anos. Somente em 1833 eles voltaram a circular e não pararam desde então.

– Austen morou em Bath por 6 anos e alguns historiadores consideram que a falta de novos trabalhos literários nessa época deve-se à uma profunda depressão; outros desconsideram essa possibilidade, afirmando que apesar de não ter escrito nada novo (apesar de ter começado um romance – The Watsons), Austen revisou seus manuscritos fervorosamente.

– A casa onde Austen passou seus últimos anos de vida – em Chawton – tornou-se um museu cuja coleção é relativamente pequena mas imensamente preciosa, e inclui a mesa onde Austen escrevia (alguém mais delirando comigo?!), algumas de suas jóias, bem como algumas de suas cartas e livros de música, com páginas transcritas por ela mesma.

– Austen disse sobre Emma: “Vou criar uma heroína que ninguém além de mim irá gostar muito.” É triste dizer isso, mas Miss Austen estava profundamente enganada, visto que Emma é uma de suas heroínas mais adoradas (apesar de todos os seus defeitos). Emma também é a única obra que tem como título o nome da heroína, e é considerada por muitos a obra-prima de Jane Austen.

– Em 1815, o bibliotecário do Príncipe Regente, convidou Miss Austen a dedicar sua próxima obra ao Príncipe.  Ela então, escreveu uma dedicatória em Emma no melhor estilo Jane Austen: “Para a Sua Alteza Real o Príncipe Regente, esse trabalho é, com a permissão de Sua Alteza Real, respeitosamente dedicado, por sua mais atenciosa, obediente e humilde serva, A Autora.”* Alguém quer tentar adivinhar se o Príncipe Regente entendeu a ironia ou não?

The Watsons, obra inacabada de Jane Austen fala principalmente sobre as dificuldades econômicas para as mulheres na época. De acordo com historiadores, Austen resolveu abandonar a obra após a morte de seu pai devido às condições similares dela e suas personagens. O Sr. Watson é um padre viúvo com quatro filhas. Emma é criada por uma tia rica, mas quando ela se casa novamente, Emma é obrigada a voltar para casa e conviver com a falta de gentileza de sua família. Seus vizinhos são os Osbornes, e Lorde Osborne sente-se atraído por Emma. Austen confiou à Cassandra que o Sr. Watson morreria no final do livro e que Emma se casaria seu antigo tutor, Mr. Howard.

– Harris Big-Wither, de uma família amiga dos Austens, pediu Jane em casamento e ela aceitou. O casamento daria a ela estabilidade financeira, uma residência permanente tanto para ela quanto para Cassandra e a possibilidade de ajudar seus irmãos em suas carreiras. Entretanto na manhã seguinte, Austen retirou sua aceitação, alegando que havia cometido um erro. Não há nenhum indício de como ela tenha se sentido com relação a esse evento, mas em uma carta para uma sobrinha, Austen aconselhou: “devo agora mudar de direção e rogar para que você não se comprometa mais, & para não pensar em aceitá-lo a não ser que você realmente goste dele. Qualquer coisa é de se preferir ou tolerar do que casar-se sem Afeição.”*

E com essa frase da incomparável Jane Austen (desculpa aí, Charlotte Brontë!), eu encerro a coluna dessa sexta-feira, desejando a todos vocês uma boa leitura nesse fim de semana. E por que não começar a ler (ou reler) uma das obras de Miss Austen? Para os principiantes, eu certamente aconselho começar com Orgulho e Preconceito – não por ser a melhor, mas por ser a mais conhecida (e obviamente, maravilhosa!). Garanto que não irão se arrepender!

*tradução livre

10 respostas em “Meu Autor de Cabeceira: Jane Austen

  1. Nhai!!! Perfeito. Sem mais.
    Adoro Jane Austen. Ela realmente é incomparável.
    Teu texto ficou fantástico. Parabéns.
    E sim, eu to delirando com essa possibilidade (ainda que remota) de um dia visitar Chawton só pra ver essa mesa. Tu não é a única doida.😄
    Excelente escolha, Ily. Excelente texto.

  2. Nossa, adorei sua coluna, Ily!
    Foi uma ótima escolha!
    Dá uma pontada de tristeza saber que Jane Austen não teve seu happy end romântico como de suas heroínas. Mas acredito que ela era muito independente para se submeter à um casamento só para ter estabilidade financeira, pelo menos ela demonstrou bom senso e foi fiel a ela própria.

    • Ela era muito Elinor Dashwood, não? hehehe
      Infelizmente era muito difícil para as mulheres na sociedade da época, e apesar dela ter recebido um pouco de dinheiro com os livros, não foi muita coisa. A irmã dela também nunca casou. Aliás, dizem que a inspiração pro Cap. Wentworth veio dali; a Cassandra ficou noiva de um oficial da marinha que não tinha dinheiro e saiu pra fazer a fortuna… mas ele morreu antes de conseguir ficar rico e/ou voltar.

  3. Jane Austen ahaza!!
    Li só Emma e Orgulho e Preconceito, mas comprei Razão e Sensibilidade, meu próximo livro! Adorei as informações, realmente teve muita novidade. Eu tinha assistido o Becoming Jane, mas gosto muito da maneira como ela envelhece calmamente no filme e dá a idéia de alguém que aprendeu a ser feliz sozinha.

    • O que eu acho ser uma verdade, esse negócio dela ter aprendido a viver sozinha. Pelos próprios trabalhos dela dá pra perceber isso, especialmente com Elinor Dashwood, de Razão e Sensibilidade, que é o modelo de perfeição da época. O que eu gostei no filme foi exatamente uma das coisas que nunca teria acontecido, que é ela se encontrando com Lefroy e ele apresentando a filha dele (que realmente se chamava Jane) à autora dos livros, sendo que ninguém além do círculo mais próximo de amigos e familiares sabia que ela escrevia. Também não gostei de uma americana interpretando Jane Austen, ficou falso, sei lá… Leia Emma, Amanda. Eu sou suspeita pra falar, mas o humor dela em Emma atinge o ápice!

  4. Aw… Jane Austen é DIVA!!!
    Conheci através do filme “Orgulho e Preconceito” e desde então não sosseguei até ler todos os livros que ela escreveu (missão cumprida!).
    Também adoro a história dela e o fato de ela querer dar sempre para as suas personagens o final feliz que ela própria não teve (é triste, mas bonito ao mesmo tempo)!
    Adorei o post, Ily!
    Beijão!

    • Yaaay thanks, que bom que gostou! Eu a conheci com O&P também, mas o livro. Só fui ver a série anos depois e o filme eu não vi até hoje, meio que me recuso haha. Eu ainda não li as obras inacabadas dela, mas estão na fila.

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